Buscar
  • Cristina Porto

Imparcialidade.


A imparcialidade anda de mãos dadas com a justiça.

Como podemos acreditar em decisões justas, em análises verdadeiras e em conclusões adequadas quando não temos imparcialidade? Algumas vezes ser imparcial dói. Analisar os fatos e dados, ouvir desarmado e manter a mente e o coração vazios para o que está posto, dói.


O imparcial é capaz de permitir que seja feito o que é certo, mesmo que isso signifique as lágrimas de um filho, as dores de um irmão ou o desentendimento com um grande amigo. O imparcial não aponta o dedo e diz “eu avisei” ou “azar de quem votou nele” como se fossem soluções para um problema de todos. O imparcial não precisa mostrar que suas decisões são as certas, ele tem clareza que precisamos tomar as decisões que são certas para todos ou para as maiorias, independente se as mesmas são para seu próprio bem.


Temo pelos momentos em que nos afastamos da imparcialidade em nossas vidas em detrimento da proteção daquilo ou daqueles que nos são caros. Aqueles momentos em que nossa ética é colocada à prova e usamos fundamentos rasos que culpam o mundo por ser assim mesmo e o senso comum por todos fazerem o que fazem.

Temo por esses momentos que crescem cada vez mais e que, por consequência, nos afastam da justiça. Menos imparcialidade, menos ética, menos justiça. Olhamos o mundo através das lentes míopes da obviedade e da irresponsabilidade, do julgamento sem critérios ou baseado em critérios pessoais e convenientes e não percebemos que isso nos leva à arrogância e à injustiça.


A incapacidade de ser imparcial é por vezes cruel. A considerar o foco que é colocado nas decisões ou as pessoas que estão envolvidas, o que por um momento era veneno passa a ser remédio, o que era inadmissível passa a ser aceitável e o que deveria ser repreendido passa a ser considerado como não tão grave assim. Sim, a falta de imparcialidade é cruel para quem está sendo avaliado nas provas da vida, porque na espreita da parcialidade pode estar a injustiça, esperando atrás da porta para se aproveitar da situação e se apresentar. Uma, duas, algumas vezes, até que se estabeleça normal.


Talvez esse texto esteja mais conceitual. Talvez os estudiosos do tema identifiquem que eu não tenha tanta propriedade para escrever sobre tal assunto, mas, o fato é que a busca por ser imparcial é uma meta constante na minha vida (e não é fácil). Às vezes é cansativo, as vezes dói, as vezes traz desentendimentos e confusão, mas sempre, absolutamente sempre, dá a sensação de fazer o certo, de criar um ciclo virtuoso de discernimento, justiça e respeito.


Precisamos da imparcialidade para conseguir ver o mundo com suas verdadeiras nuances e ensinamentos. Precisamos de bem menos arrogância e bem mais imparcialidade, bem menos egocentrismo e bem mais imparcialidade, bem menos autoritarismo e bem mais imparcialidade. Estamos mais egocêntricos, mais arrogantes e autoritários. Estamos menos e menos imparciais. Menos dispostos a aceitar que toda moeda tem o lado cara e o lado coroa, a reconhecer que existe o côncavo e o convexo, o preto e o branco. Menos dispostos a aceitar que nossas mentiras são a verdade de outros.


Eu olho para o mundo de hoje e vejo um número sem fim de partidários de alguma coisa ou de qualquer coisa. Conceitualmente, “o imparcial é aquele que se abstém de tomar partido”. Estamos precisando aumentar o grupo das abstenções, aumentar o grupo dos “sem partido”, daqueles que conseguem ampliar sua visão de mundo por meio do senso de justiça e não por meio da criação de hashtags.

Daqueles que ainda conseguem analisar sob diversos prismas e aceitar que a razão pode estar do lado oposto do seu ego e não há problema algum em baixar a cabeça, silenciar a voz e transformar esses momentos em aprendizado.
45 visualizações