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  • Cristina Porto

Eu não tenho tempo.


A pergunta que não queremos responder é: eu não tenho tempo ou não tenho coragem?

Inúmeras publicações tentam mostrar aos gestores a importância de conversar com seus colaboradores, o que costumamos chamar de feedback. E, por quê é tão difícil colocar esse hábito no dia a dia das lideranças?

Conversar?

Que proposta mais ousada para nossos tempos. Até mesmo em tempos de quarentena já conseguimos preencher nossos dias e noites com inúmeras lives, assim não precisamos conversar. Não parece uma proposta um pouco antiquada, conversar? Parece que vamos seguir em home office, nem vai precisar e, já existem muitos aplicativos com receitas e dicas de como dar feedback, uma lista de como fazer em cinco passos, começar pelos pontos positivos da pessoa, blá, blá, blá.

Entende? Eu não tenho tempo (e muito menos coragem).

Para conversar com seu colaborador é preciso muita coragem. Muita.

Veja bem, não estou falando de chamá-lo na sua sala para despejar ordens ou dizer palavras rudes em tom ainda mais rude e finalizar com frases como “Entendeu ou preciso desenhar?”. Uma conversa de feedback não é um monólogo e não é sobre coisas, resultados, produtos ou números. Ela é sobre competências, habilidades, atitudes e sentimentos que vão ajudar ou atrapalhar para conquistar os desejados números.

E, por isso, você vai precisar de coragem.

Vai precisar ser um observador e estar sempre ao lado de quem trabalha com você (e não para você). Identificar e reconhecer suas forças e fraquezas, onde você pode ajudar a melhorar e onde estão os limites que todos temos. Você vai precisar ter coragem para delegar, repassar informação, comunicar claramente e segurar a onda quando algo der errado. Só assim, em ação, você vai poder conhecer o comportamento das pessoas com quem está trabalhando e ser capaz de sentar ao seu lado para conversar sobre como as coisas estão indo ou, “tecnicamente falando”, dar feedback.


Você vai precisar coragem porque uma conversa verdadeira diz respeito a estabelecer um vínculo emocional com o outro.

Vai precisar olhar nos olhos de alguém e lhe dizer que não está indo bem, que precisa ser mais focado, que não está se comunicando bem ou que não está conseguindo ser cortês e educado com os clientes e, isso vai ferir seu ego, vai fazer com que se sinta inferior, com raiva ou medo e muitas vezes todos esses sentimentos misturados. E, se você não tiver coragem para lidar com esse turbilhão, vai dizer que não tem tempo. Que está envolvido com questões urgentes e estratégicas. E isso será um alívio.

Você vai precisar coragem porque em outras tantas vezes, felizmente, seu feedback será para agradecer, para dar parabéns para sua equipe, reconhecer seu sucesso e suas conquistas. Demonstrar gratidão. Talvez, você precise verbalizar que alguém é bem melhor que você com números ou com relacionamento com o cliente ou com organização e cronogramas e até mesmo vai ser preciso reconhecer que tem novos líderes emergindo ao seu lado. Aí sim, você vai ter que ter muita coragem.

Para a maioria de nós é fácil apontar as falhas dos outros, mas reconhecer suas grandezas nos coloca em posição muito vulnerável, de muito “bondosos” e assustados com a possibilidade de que alguém está indo tão bem. Portanto, não temos tempo para isso. E nem precisa. Fazer bem feito é a obrigação. Não é assim?

Coragem líderes. Coragem para olhar no olho e dizer o que tem que ser dito, com responsabilidade, coerência, respeito e justiça. E, de preferência, como diz Brené Brown “do mesmo lado da mesa”, física e metaforicamente.

Coragem. Não te falta tempo.

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